Aissiquíu, aissiquíu.

Data 05/07/2003 14:00:00
Autor(a): Alê Félix


Valdirene queria vingança, nada além da mais pura e saborosa vingança.

- Não é possível que aquele cachorro-cretino-canalha passasse tantas horas grudado no micro atrás de mulheres sem que eu percebesse! Um sem vergonha! Um mau-caráter! Como pôde me enganar durante todos estes anos? "Estou trabalhando, estou trabalhando, estou trabalhando... " Mentiroso-cara-de-pau! Dinheiro que é bom, nada! Mas eu juro, Clotilde... Ele pagará com sangue a humilhação que estou vivendo!

Diante do espelho do banheiro do shopping, sua expressão era a de uma demônia pronta para tirar a vida do marido traidor. A amiga, preocupada, botava panos quentes:

- Mulher, pelamordedeus, deixa de ser perturbada! Esse negócio de chifre pelo computador não existe. Coisa de gente maluca!
- Maluca nada, Clotilde! Eu vi! Eu vi com esses olhos que a terra há de comer! Tanto revirei aquele trem que acabei achando a florzinha verde.
- Florzinha verde?
- É. Um troço que ele não tirava da boca quando estava com os amigos: "aissiquiu pra lá, aissiquiu pra cá..." Eu tinha certeza que coisa boa não era! Li todas as conversas pornográficas que aquele indecente trocou com uma vadia!
- Mas Val do céu, pense com esta cabeça que Deus lhe deu, criatura! Estas pessoas não existem. Essa tal de internet deve ser uma empresa que contrata gente pra ficar enganando as pessoas.
- Clotilde! Eu tô pra ver sujeita mais chucra que você nesta vida! Tu é muito ignorante mesmo.
- Ih... péra lá, minha filha! Também não precisa ofender. Não é porque você está com dor nos cornos que eu não vou revidar.
- Ah, agora eu sou chifruda mesmo, né? Que bela amiga você é!
- Quem mandou me chamar de burra?
- Pois você vai ver o tamanho do chifre! Vai ver o tamanho do chifre que aquele salafrário vai engolir! Hoje mesmo eu descubro quem é esta tal de Lady Lu. Quero ver o que esta piranha tem que eu não tenho.

Valdirene tremia de ódio. Voltou para a loja onde trabalhava de balconista, pediu para ser dispensada mais cedo e foi para casa. Estava disposta a virar do avesso a cara e o guarda-roupa do marido. Ela suportaria qualquer coisa, mas traição? Traição, jamais! Era uma mulher arretada, possessiva e que jurou que nunca levaria pra dentro de sua casa desaforos e muito menos um homem infiel. Casou-se com Joselito porque tinha certeza que ele, sonso e feio como era, não arranjaria na vida nada melhor do que ela. E ele realmente não lhe dava motivos para desconfiança, não antes de terminar o curso de informática e ficar obcecado por internet. Desde então se tornara um verdadeiro zumbi - dias e noites babando na frente de um monitor. Tão abobado, que esqueceu a máquina e o ICQ ligados. Um prato cheio que Valdirene devorou por horas, mesmo com suas limitações tecnológicas.

O portão estava aberto e o carro do marido estacionado na rua. Valdirene estranhou. Ele deveria estar no trabalho. Abriu a porta com cuidado. Desconfiada, desceu das tamancas barulhentas e, na ponta dos pés, atravessou a sala. Espiou, pelo vão da porta, o quartinho de bagunças e em seguida entrou de sopetão no quarto de dormir, crente de um flagrante. Respirou aliviada...

- Seria muita ousadia do picareta. Mas onde este homem se enfiou?

Um pouco mais relaxada, Valdirene seguiu até a cozinha para tomar um copo d'água mas, antes que abrisse a torneira, foi interrompida por um som que vinha da lavanderia. Olhou assustada pela fresta da veneziana e viu o marido sendo agarrado por uma ruiva de cabelos longos.

Enfurecida, Valdirene arrancou a peixeira da parede e abriu a porta que dava para a lavanderia.

- Filho de uma puta!

A ruiva, de susto, desatracou das costas do Joselito atirando-o de cabeça dentro do tanque. Histérica, ela saltava seminua diante dos olhos de Valdirene.

- Ai, meu Deus do céu! Ai, meu Deus do céu! Eu sou muito nova pra morrer!

Valdirene, bestificada com o facão em punho, presenciava a maior quantidade de silicone e o maior membro que já havia visto em sua vida. O marido com as calças arriadas, a bunda branca toda de fora... Ele tentava se recompor do susto e, provavelmente, dos orgasmos que o tal do Lady Lu lhe proporcionou, mas acabava tropeçando em si próprio.

Boquiaberta e com as pernas bambas, Val deixou a peixeira cair junto com seu corpo e esparramada pelo assoalho da lavanderia ela contorceu-se de rir. Gargalhou de lacrimejar, de ecoar pelos quatro cantos da vizinhança. Emitia uma gargalhada louca, cheia de prazer e gratidão por não ter sido traída.

- Antes um ex-marido vivo e veado, do que um ex-marido morto e infiel.

Alessandra Félix - Amarula com Sucrilhos




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