
Dezoito anos, parda, estatura média, lenço no cabelo e um avental preso no quadril arrebitado que fez seu Marcos perder a cabeça e a esposa.
Antes da rapariga vir da Bahia a pedido da patroa, seu Marcos era um sujeito triste. Não que sempre tivesse sido, mas viver quase duas décadas com dona Francisca o tornara apático, um molengão.
Francisca era uma mulher prática, moderna, mas controladora ao extremo. Quando ficaram sem faxineira pela terceira vez consecutiva, ela cedeu aos conselhos da mãe e enviou a passagem e um dinheiro para Zenaide vir trabalhar em São Paulo.
Receosa da beleza da jovem, ela insistiu em ver fotografias da moça. Temia que o marido se engraçasse com uma empregada. Ela confiava nele, mas não mais do que se deve confiar em um homem. Mesmo assim, deu-se por satisfeita com uma foto três por quatro que a mãe da menina enviou. Como o rosto não era grande coisa, o corpo também devia deixar a desejar.
Quando se conheceram, ela ficou aliviada. A menina além de feia, mal abria a boca. Balbuciava uma ou outra coisa e voltava os olhos para o chão. Era tudo que Francisca queria; salário baixo, empregada vinte e quatro horas e uma garota feiosa e muda.
Já seu Marcos... ai, o seu Marcos... Marcos encantou-se de tal jeito com as ancas de Zenaide que não tinha olhos para mais nada. Seguia aquelas nádegas com o rabo dos olhos por todos os cantos. Media as coxas, o movimento das pernas e deliciava-se nas curvas opulentas que a moça ostentava. E olhou tanto, mas tanto, que um dia, longe dos olhos da dona Francisca, ela retribuiu com um sorriso malicioso.
Naquele dia, o homem renasceu! Marcos voltou a praticar esportes, a vestir-se com cuidado, a fazer a barba cantando ópera. Sentia-se novamente um homem viril e feliz. Zenaide também mudou o comportamento. Não aos olhos da patroa, que saia cedo para o trabalho e voltava, tarde da noite, exausta e estressada - mas aos olhos do patrão a menina estava cada vez mais assanhada.
Iniciaram um jogo de sedução perigosíssimo. Um jogo de olhares, pernas à mostra e nenhuma troca de palavras. Ambos sabiam que o discurso de dona Francisca pregava a morte e a castração para os casos de infidelidade. Todo cuidado era pouco e o medo era notório.
Passaram dias botando fogo um no outro, mas o bicho só pegou pra valer quando seu Marcos apareceu em casa na hora do almoço. A casa estava vazia e o silêncio só era quebrado pelo barulho da máquina de lavar e pela cantoria da menina que esfregava umas peças de roupa no tanque. Marcos sentiu-se um animal e mesmo enferrujado pela falta de prática, decidiu partir para o ataque.
Jogou o paletó no corredor, afrouxou a gravata e entrou na lavanderia. Zenaide levou um susto, mas sorriu com os olhos e com a bunda. Deu um suspiro e sinais corporais que permitiam claramente que Marcos se aproximasse. Mas antes que ele o fizesse, a menina tirou o avental e pulou no colo do homem beijando-lhe a boca com robustez.
Marcos, atônito, tentou arrastá-la com o intuito de levá-la para cama, mas a menina não quis. Não quis e falou:
- Eu quero aqui. Eu quero no chão.
No mesmo instante, ela jogou o homem no chão sujo da lavanderia com o ímpeto de uma pombagira. E montou em seu corpo se esfregando de tal forma que deixou Marcos paralisado. O tranco dos corpos fez com que Zenaide esfregasse os peitos dela contra os dele e, incomodada, com o celular que ele guardava no bolso da camisa, ela decidiu acelerar o processo e tirou-lhe a roupa. Arrancou o cinto no dente, desabotoou a calça com a maestria de uma moça no cio e, ao arrancar-lhe a camisa, jogou-a de lado junto com o celular que, sem que eles percebessem, havia completado uma ligação. Zenaide era uma louca, uma louca por sexo. E como falava! Falava, gritava e gemia com toda a sua arretada baianidade. Marcos? O tímido Marcos, despirocou de vez com a menina. E disse tantas barbaridades enquanto era devorado pela empregada que, dona Francisca, que ouviu tudo pelo celular, teve um ataque cardíaco e morreu debruçada na mesa do seu escritório.
Alessandra Félix - Amarula com Sucrilhos